domingo, 6 de novembro de 2011

Em Roma...(crônica I)

 

Em Roma...(crônica I)


Por Fábio Ochôa




Leões no Jardim



- O menino ainda está sumido, vocês têm que achar o menino. - Foi um dos gritos, jogados na noite, carregado de desespero em suas entrelinhas, reafirmando o óbvio, morrendo no negrume do ar

- O fosso, alguém olhou o fosso? Olhem o fosso. – gritou outro, a verdade é que havia muita gritaria, a verdade é que ninguém mais se ouvia.

- O respiradouro das cisternas. – outro gritou, voz sem corpo na escuridão daquela noite. Porque eles não pegavam mais tochas? Como esperavam achar alguém às cegas?

O homem caminhou na escuridão do pátio amplo, com seus passos tímidos roçando a grama. À sua volta divisava formas correndo, de cá para lá, de lá para cá e só então reparou que na pressa esquecera de calçar as sandálias.

E era assim que acabava a festa da Casa de Campo de Castório, pensou o homem de passos lentos, como que para evitar pensamentos piores. O menino ia ser achado em breve, claro.

Era uma criança e todos sabem como crianças são.

Mais homens passaram correndo, agora portando tochas, finalmente, não? A grama umedecia seus pés, era difícil de aparar, mas era o grande diferencial da Casa de Campo de Castório, era mais um dos detalhes para qual seu senhor preparara aquela noite, para ver o olhar de inveja de seus semelhantes, a riqueza, no fim das contas, também era uma forma refinada de guerra, pensou.

- Ele não está no fosso. Vão ver o outro lado, vão para a frente! – gritou longe outra voz sem dono.

O homem não mudou de direção, entregue à escuridão do vasto pátio, vendo os homens correndo com tochas passarem por ele.

- Um rugido! – todos gritaram. Um rugido. Inequívoco. Um rugido.

Mas as crianças...

Não.

Todo mundo sabia que era uma brincadeira de criança... Não havia, não podia haver leões no jardim.

No mundo que Malaquias habitava, leões não surgiam do nada em jardins.

Um novo rugido se ouviu, distante, gritos de pânico emergiram de todas as partes, a correria cega se intensificou, o homem sentia os corpos correndo, ainda que sem poder divisar nada. Estancou, esperando, algo, alguma coisa, qualquer coisa.

- Malaquias! – ouviu a voz furiosa, ao se virar, a figura enorme de Antonius, o administrador, correndo em sua direção, portando uma tocha em cada mão – É você? Não? Malaquias!

Malaquias, desperto de seu torpor concordou com a cabeça.

Ao fundo, distante, as luzes da imensa casa de campo se acendiam cada vez mais. Novas piras, novos archotes. Toda a música já havia morrido.

- Pegue isso, seu inútil. – Alcançou a tocha para ele – E vá ajudar os homens no jardim da frente.

Malaquias olhou vago e sonolento para a frente, por fim murmurou - Há mesmo um leão no jardim?

O administrador respirou fundo, enfiou a mão no cinto improvisado e lhe alcançou uma faca, uma faca de cozinha, a mesma faca que Malaquias o vira cortando uma maçã ao meio enquanto se gabava horas atrás na festa.

- Para sua proteção. Agora vá. – falou, em tom firme, o homem sabia em que implicava desobedecer aquele tom.

E no silêncio que tornara um modo de vida, recomeçou a caminhar à frente, em uma moldura negra quebrada apenas pelos pontos distantes de tochas a dançar na escuridão.

Tentou não pensar no garoto. Sinceramente, não achava particularmente que logo ele o encontraria.

Sem perceber, seu passo era cada vez mais devagar. Era tão grande assim o jardim?

Aquele era ele: homem com uma tocha e uma faca de cozinha, em um mar de escuridão.

 

Foi no começo da festa que o menino havia dito que havia um leão no jardim.

Todos riram dele, claro, a música não parou, as conversas tampouco. Havia energia no ar. César havia voltado a Roma, um leão no jardim, esta era a analogia que usaram, em cada rosto, risadas, em cada olhar, a incerteza, a tensão, a promessa de que nada mais seria como antes.

E agora as pessoas seguiam saindo da mansão.

E a música, era apenas um eco distante. Um fantasma de um tempo irrevogavelmente mudado.

 

Parou, olhou ao redor.

Nada.

Sem perceber, segurava com mais força a faca, até seus nós dos dedos ficarem brancos enquanto voltava a andar.

Mais crianças voltaram durante a festa, elas haviam dito que realmente o menino tinha razão, havia mesmo um leão no jardim, sendo sumamente ignoradas enquanto os adultos tramavam as teias que somente os adultos sabiam tecer. E em algum momento acharam de bom tom manter as crianças na parte de baixo da casa enquanto os jogos noturnos começavam.

E então o menino havia sumido.

A troça acabara. As risadas também.

 

Enquanto escravo, Malaquias se sentia confortável em sua posição. Era invisível e fizera desta imperceptibilidade um mecanismo de sobrevivência. Era Roma, afinal de contas, eram tempos duros, todos sabiam disso e não raro um escravo levava uma vida melhor que homem livre. Aprendera os truques, o principal dele era sempre passar despercebido por Antonius, o lendário administrador que fizera da violência e da temeridade uma ferramenta para fazer as coisas funcionarem.

Dia após dia, calado fazia o pão, quieto servia o vinho, insondável, cuidava das plantas e assim sua vida passava, uma brisa calma nas tempestades do Império.

Era um homem imerso, imerso na difícil tarefa de não existir.

Nunca Antonius lhe dirigira a palavra e quando finalmente o fizera, era para lhe dar uma faca de cozinha e mandar encarar um leão.

Para ver como era a vida.

Se fosse um pouco mais arguto, Malaquias perceberia que sua situação em nada mudara. No fim das contas, sua vida sempre fora aquilo: um homem invisível em um quintal, rodeado por leões invisíveis.

Ouviu barulho adiante.

Algo se movia.

Pensou em chamar o nome do menino, deteve-se. E se não fosse ele?

Mas claro que não poderia ser o leão. Todos sabiam que leões viviam só em arenas.

E qualquer arena que não fosse a política, estava muito, muito distante.

Sim senhor.

A seus pés descalços, o jardim que plantou. Algum dia seria libertado e outro homem seria responsável por aquele jardim.

E neste dia, Malaquias não saberia o que fazer tão imerso que estava à sua rotina.

 

Puxando o que restava de coragem dos seus intestinos, murmurou baixinho:

- Menino?

Nenhuma resposta.

Ele gostava do menino. Desde pequeno era dado a fantasiar, a inventar e à maneira de Malaquias, evitar o pai. O pai que tanto poder irradiava, um homem tão sólido cuja sombra sempre intimidaria, em um nível até mesmo inconsciente um menino que era feito de sonhos soltos de verão, de versos aventureiros, de piratas que caíam dos céus, de peixes que saltavam de fontes.

De leões que espreitavam crianças inocentes em jardins.

O guri não nascera para ser sólido, o menino não nascera para ser nada além do menino que era, tinha que ser protegido. Essa era a verdade simples que o pai nunca entendera.

 

Perto, de repente, um grito. Malaquias virou rapidamente para sua direita, algo se moveu à sua frente e não pode identificar o que era, outro grito, e mais outro e mais outro e antes que pudesse perceber, seus pés já estavam em movimento, correndo, gritando, gritando, todos estavam gritando.

E então o urro. O urro de besta selvagem.

Passou ao seu lado, pôde sentir o movimento, ao seu ladoaoseuladoladoladolado. A tocha caiu de suas mãos apagando-se instantaneamente, alguém trombou com ele, quem era? Socou às cegas, correu girando, gritando, brandindo a ridícula faca de cozinha, cortando o ar uma, duas, três vezes, ouvia os gritos, via os pontos brilhantes e então finalmente, tropeçou e caiu ao chão.

A faca voou longe, inatingível na escuridão, a ridícula e inofensiva faca de cortar frutas, não importava, ao se dar conta que ela não estava mais em sua mão, gritou como um homem que perde tudo, encolheu-se no chão, agarrou a própria cabeça, gritou, gritou, gritou, todos gritavam na noite. Todos.

Havia leões no jardim.

Aquele não era mais o mesmo mundo em que despertara de manhã.

 

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A primeira coisa que sentiu foi o frio da noite em sua pele clara.

Depois a umidade da grama, incomodamente espalhada por todo seu corpo.

E então se deu conta, lento, das luzes na casa, dos murmúrios distantes. Seus membros doíam, esticou as pernas, ganiu de dor.

Se arrastou alguns metros até se por em pé e trôpego se pôs a andar em direção às luzes. Flocos de grama e terra se desprendiam de seu corpo a cada passo, voltando a pousar suaves no solo.

Alguns poucos olharam para ele, quando chegava.

- Mataram o leão. Diziam, sem emoção, apáticos.

Os rostos brancos, estupefatos, com dificuldade abriu caminho entre a pequena multidão.

Prostado ao chão, iluminado pela luz das fogueiras, o corpo de Antonius aberto, uma cratera, com o cheiro ocre de sangue.

Os dedos dele ainda tremiam, como a chamar a morte inevitável.

Mas não era isso que todos olhavam.

- Ele era um leão. Correram os murmúrios novamente.

- Vocês viram.

- Ele era um leão.

Alguns concordaram, rostos congelados, tez pálida, mais estátuas que homens. As expressões cômicas de assombro.

Malaquias forçou novamente passagem.

Havia apenas um homem com uma capa laranja, deitado ao chão, duas lanças trespassadas, sua cabeça aberta a porretadas, seu rosto, uma expressão deformada, abobalhada, devido à força dos golpes.

- Ele era um leão. Agora é homem. Era um leão.

Murmurou um dos convidados como se o mero fato de falar pudesse tornar o que vira realidade.

O corpo era hipnótico. Branco, nu, a capa esvoaçante e os pequenos pêlos laranjas se desprendendo. O odor felino. O odor de sangue, o algo, o algo familiar, o...

E então o reconheceu, era Lazário, o auxiliar de cozinha.

- É feitiço, é maldição. Disseram. Alguns escondendo seus rostos, outros cuspindo no cadáver a sangrar.

Outros escravos se lembravam de enrolar o corpo de Antonius.

E alheios a tudo, os pêlos se contentavam a voar pela noite.

 

- Queimem isso! - Bradou Castório, senhor daquela casa. - Queimem este corpo imundo!

Escravos saíam de seu torpor e se colocaram em ação.

- Achem a mulher deste cachorro e a afoguem. Agora! Vão! Agora!

Escravos correram e tudo novamente era movimento.

Mais uma vez, alheio a tudo, Malaquias olhou para um dos convidados. Malaquias, o eterno discreto Malaquias que com sincera preocupação, esqueceu do silêncio pelo qual pautara toda sua vida e falou a única coisa que lhe ocorreu, a coisa que com todos os fatos, havia sido esquecida por todos.

- Mas... E o menino?

 

 

Fim de mais um capítulo.




 

Sobre Textos e Contextos


Por Marco Antônio Collares


 


            A Roma do século I a.C, época de César, era uma cidade cosmopolita de mais de 500 mil pessoas, muitas das quais, plebeus livres (ingenui) e escravos. Os romanos teriam levado os leões do Oriente Médio à extinção, tanto os da Mesopotâmia quanto os da Pérsia, nas chamadas venationes, incríveis espetáculos em que homens e feras lutavam até a morte. Importante destacar também que o conto menciona a volta de César a Roma, significando a entrada na Itália com suas legiões vindas da Gália, em 49 a.C, de modo a enfrentar Cneu Pompeu, antigo aliado e na época seu mais valoroso adversário. Não devemos desconsiderar também que o conto se passa em uma casa de campo, o que era muito comum entre os romanos das elites (nobilitas), possuindo comumente uma casa na Urbs e outra no interior, local da fazenda (latifundia), normalmente sob o comando de um administrador, que podia ser um escravo cuidando de outros tantos escravos, como é o caso de Antonius e Malaquias.

2 comentários:

  1. Pois é, reitero novamente o que já te passei no e-mail. O conto tá muito bom. O próximo é meu.

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